Abriste o portão com os olhos fixos no carro estacionado mesmo em frente. estavam à tua espera, impacientes, há pouco mais de cinco minutos...os teus cinco minutos da praxe, os cinco minutos que esquecem onde estão as chaves de casa, que compõem o cabelo frente ao espelho do
hall de entrada, que escolhem um casaco quente do bengaleiro e se despedem da casa. entraste no carro, multiplicando-te em cumprimentos pelos três ocupantes...foi então que confirmaste o alerta lançado pouco tempo antes: ele estava de muito mau humor.
Arrancaram todos, rumo ao outro extremo da cidade. pelo caminho, frases soltas abriam brechas na música, melodias fáceis de digerir servidas por uma
junk radio qualquer. virada para a tua amiga, com quem partilhavas o banco de trás, matavas o silêncio com pequenas revelações do quotidiano, umas interessantes, outras nem por isso... por vezes olhavas através dela e da janela lateral, onde o olhar perdia-se num qualquer estímulo luminoso. a certa altura, deste conta da rapidez invulgar com que os
slides da paisagem deslizavam pelo vidro da janela...quando te voltaste para a frente, ele conduzia o carro em jeito de "abram alas!" pressionando os automóveis da frente...colava-se à traseira a cem à hora, em aceleração constante,
ready or not, here i come..."anda lá, sai-me da frente!"...até que a suposta lesma da frente resolvesse passar para a via à direita. mas até a mudar de via o raio da lesma era lenta...daí o
slalom entre automóveis e separadores, a escassos centímetros de um filme muito feio. dentro do carro, soaram alguns pedidos vãos de contenção, que não percebeste se tinham sido ouvidos. quando alguém abandona o corpo, abandona também os sentidos...e não tinhas dúvidas de que ele estava fora de si.
nunca foste adepta da condução ofensiva. não padecias da aparente imunidade geral às imagens de viaturas acidentadas e vítimas politraumatizadas. na tua cabeça, fizeste a soma: velocidade mais aguaceiros mais curvas traiçoeiras igual a risco. não sabias se os outros tinham o mesmo resultado em mente...mas o facto é que, quando o velocímetro marcou os cento e quarenta, ninguém abriu mais a boca. nem mesmo tu.
perto do destino, a soma cumpriu-se: numa curva larga e escorregadia, a traseira fugiu ao controlo e o carro fez meio pião na estrada, planando sobre um fino lençol de água. a par do chiar dos pneus, ouviste um "foda-se!" escapar-te da boca...ao contrário do que se esperava, foi o sentido de impotência que impediu o pânico de tomar conta de ti. quando tudo terminou com o carro atravessado na estrada, olhaste para o caminho percorrido: ninguém seguia atrás. desta feita, estiveram a largas centenas de metros de um filme muito feio. atiraste algumas frases sedativas, "já passou" "ninguém se magoou" "encosta à berma e respira fundo"...e o corpo dele assim fez. levou o carro à berma, de forma brusca. num espasmo, saiu do carro e fechou a porta com violência. era um corpo sem domínio a ser repreendido pela consciência.
dentro do carro, um tremor ligeiro acompanhava-te nas tuas interrogações:
porque é que não abriste a boca?
onde estava o "foda-se!" minutos antes, quando ainda era útil?
de que serviu prever sem actuar?
quantos perigos poderiam ser evitados com uma simples palavra?
será o silêncio um assassino oculto?