viver contamina-me.

18.7.05

Outras formas de Sepsia

Enquanto este Sepsia vai definhando ao mesmo tempo que recusa assinar a sua própria certidão de óbito, novos fenómenos de contaminação surgem um pouco por toda a rede.

É o caso deste site, que atraiu a minha atenção a meio de uma das minhas (raras) deambulações nocturnas pela esfera virtual. Homónimo deste blog, é uma forma diferente de sentir a colonização das horas e dos actos, registando os sintomas através da objectiva.

Recomenda-se um desvio...

3.4.05

Lá fora



Há dias como hoje.
Dias em que a vida acontece lá fora. para lá deste quarto, nada parece estar quieto. de cada esquina surgem pessoas que acorrem num frenesim aos seus altares predilectos - os religiosos, os naturais, os sociais, os de consumo... e enquanto uma explosão de luz leva um brilho de inquietude a todas as coisas, um sol tímido entra pela janela e pede licença para ficar.

Em dias assim, concedo-me alguns momentos de sossego.
Demasiados, até.

21.2.05

Recolonização



É um facto que Sepsia viveu (e ainda vive) quase sempre de despertares...mas foi o maior período de hibernação, este do qual acabei de sair.

Poderia justificar-me dizendo apenas que mantive um longo e penoso quadro de santanite aguda, uma infecção oportunista fulminante que atacou Portugal de norte a sul e só foi erradicada este Domingo. E pensando bem, é assim mesmo que me vou justificar...

Agora que convalesço entre suspiros de alívio, vou preparando o meu organismos para novas contaminações - menos nefastas, espero. Ao acordar do delírio que foram os últimos sete meses, vejo que pouco mudou no universo das pequenas coisas. Felizmente. É graças a elas que, onde quer que vá, continuo a sentir-me em casa. Posso, enfim, chamar a vida até mim e tornar a colonizar o meu sistema.

20.7.04

Grandes obras para grandes desígnios

Desde o fim da última época de exames, comprometi-me a manter os sentidos bem despertos em busca de novos focos de contaminação. 
 
Só não estava a espera de colher tão cedo os frutos de tal decisão:
soube por fonte oficiosa que o primeiro-ministro de portugal pretende remodelar toda a arquitectura neoclássica do palácio de s. bento, da fachada aos interiores. de acordo com a mesma fonte, o novo espaço deverá inspirar os membros do executivo e os 230 deputados durante as sessões parlamentares, ao mesmo tempo que renovará o interesse público pelas actividades da assembleia da república. as obras arrancam no final da semana e o resultado estará à vista de todos dentro de (pasme-se!)  6 meses.
 
Eis uma projecção do palácio de s. bento depois de concluídas as obras:
 





2.7.04

Há vida no complexo R?

Através deste blog, vejo-me como uma criatura que passa mais tempo a despertar do que a viver. talvez se não houvesse noite nem inverno e o sol me aquecesse o sangue a toda e qualquer hora...


Decidi apagar O homem-réptil [1] (15/5/2004) deste diário de contaminação, por ser incapaz de vislumbrar as sequelas [2] e [3]. falhei na tentativa de alienar o ser humano das emoções inerentes à sua condição. em contrapartida, a nossa sociedade tem sido relativamente bem sucedida, ao promover a mecanização dos actos, a materialização dos objectivos de vida, a gratificação instantânea do corpo e da mente e a (in)consciência colectiva subjugada ao culto de um indivíduo. ao percorrer este caminho, resta-nos pouco com que SENTIR e pouco tempo para fazê-lo. como tal, aproximamo-nos daqueles bichinhos rastejantes, escamosos de língua bifurcada.

Diz-se dos répteis que são desprovidos de emoções, tanto de as gerar em si mesmos como de as reconhecer nos seus semelhantes. a explicação estará relacionada com uma estrutura cerebral denominada sistema límbico, sede das funções afectivas: o instinto maternal, o comportamento lúdico, os estados de alegria, tristeza, medo, prazer, ira, paixão, amor, ódio... na escala evolutiva, é a partir dos mamíferos inferiores que vamos encontrar um sistema límbico desenvolvido; nos répteis, este pura e simplesmente não existe. a relação deles com o mundo resume-se ao estritamente necessário para a autopreservação - reflexo.agressão.fuga.aproximação.acasalamento.repetição. ao conjunto das estruturas que formam o cérebro reptiliano, os cientistas chamam complexo R.

Ultimamente, tenho me perguntado se o mesmo se passará com certos representantes da minha espécie. para minha desilusão, é com cada vez menos espanto dou pela existência de pessoas que não reagem a um sorriso, que não se compadecem com o choro de outrem, que se servem de corpos alheios em vez de fazer sexo, que matam e morrem sem sequer pestanejar, que decidem sem olhar a quem...

Contudo, ainda não me habituei à ideia de haver quem, ao cair da noite, adormeça de consciência plenamente tranquila. porque a memória (em particular a memória de eventos passados) depende também do sistema límbico. se a minha hipótese estiver correcta, facilmente se entende a velha máxima "quem tem a consciência tranquila deve ter má memória".

31.3.04

Re.criatura

Foi em pleno sol de meia-noite que a criatura brotou da superfície de uma terra desolada. sacudiu a poeira dos ombros e olhou em redor. não sabia por onde começar, pelo que deixou-se caminhar em direcção ao monte mais próximo. de passo arrastado em passo arrastado, os cabelos longos roçavam as pontas no chão de cinza e poeira. um prurido impossível apoderou-se do corpo nu da criatura, que se coçava insistentemente até escavar feridas na pele. os raios de luz batiam-lhe no dorso e gelavam-na por dentro. mesmo assim, a caminhada solitária prosseguiu, irreversível como o avançar da horas.

Quando o sol atingiu o topo do céu, a criatura chegou ao cume do monte. ajoelhou-se lentamente sobre a terra fria e, com as manápulas, abriu um pequeno buraco no chão. deitou-se junto ao buraco de barriga para baixo e nele enterrou o rosto incaracterístico de criatura. esticou os membros num imenso abraço. dos sulcos ensanguentados que rasgavam o corpo de alto a baixo, nasceram raízes que penetraram a terra e alcançaram o coração inerte do monte, envolvendo-o numa coroa.

Foi então que a criatura soltou um grito e estremeceu violentamente. e com a criatura, o monte. e com o monte, a terra inteira. e com a terra inteira, o coração do monte.

Com o abalo, o tempo parou abruptamente. a criatura susteve a respiração. o tempo esperou que a criatura expelisse o ar de dentro dela e só então retomou a corrida. a terra começou a vibrar ao ritmo dos batimentos do coração, dos batimentos solenes daquele coração reanimado. o sol tornou-se cada vez mais quente, tão quente que a água fervia entre as fendas do solo. a cada pulsar, a criatura afundava-se um milímetro no chão, onde os finos grãos de terra e cinza e pó diluíam os sucessivos milímetros de pele e carne e osso.

Ao centésimo batimento, nada havia sobre o monte que lembrasse a criatura, além de uma cicatriz em forma de abraço.

23.1.04

A leste, o fantástico

As últimas semanas resumiram-se a um mergulho profundo em alcatrão quente. hoje, cada gesto espontâneo é uma braçada em direcção à superfície.

Foi o meu braço esquerdo que alcançou o bolso das calças e tirou uns trocos para pagar o bilhete de cinema. entrei na sala sem saber o que esperar de Lost in Translation, guiada pela evocação de fragmentos de memória do quotidiano (as palavras "sofia coppola" e "revelação" entre o ruído de uma t.v. ligada).



Por pouco menos de 4 euros, acabei por fazer uma viagem à tóquio contemporânea - através dos olhos de dois americanos entregues a si mesmos numa colisão em cadeia: bob e charlotte chocam com a cultura nipónica para depois chocarem um com o outro.

O japão é o epicentro das tendências juvenis do sudeste asiático. tudo o que estes adolescentes e jovens adultos vêem, ouvem, lêem, vestem e jogam...enfim, tudo o que faz deles trendy teens...é importado em grande parte do cenário de tóquio. durante os cinco anos que passei em macau, vivi paredes meias com jovens de idade próxima e hábitos distantes. na maior parte do tempo, assumi o papel de observadora...mas fui inevitavelmente contaminada, havendo em mim vestígios desse modo fantástico de ser. fantástico pelo ciclo vicioso de influências entre fantasia e vida real. a estética dos conhecidos animes inspira-se no quotidiano, que por sua vez decalca a ficção sem eliminar os elementos de fantasia (sobretudo gestos, timbres e trajes). o resultado: uma explosão de luz, cor e irrealidade ao virar de cada esquina.

Por tudo isto, foi com inesperada nostalgia que, sentada no escuro do cine-teatro, sorri ao percorrer as ruas fervilhantes de tóquio com bob, ao entrar no salão de jogos com charlotte, ao desafinar em versões karaoke de clássicos americanos...e parte de mim quis voltar a ser um desenho animado.

2.1.04

Viajantes

(Sepsia pede desculpas a quem aqui vem, por hábito, contaminar-se. um cocktail de dever académico, batalha antigripal e silêncio criativo atirou-me para um canto de embriaguez muda. retorno hoje, quase a 100%, para saudar o ano de 2004 desta forma:)

Os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem. Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagens e a sua casa é o espaço sem fim. Dos homens do passado, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento.

- Matsuo Bashô (1644-1944) -

25.11.03

Diógenes e a penitente

Assim reza um caderno do Público sobre "O Cão":


quando uma mulher se prostra para rezar, olhando de soslaio o seu traseiro assim oferecido, o sábio agitado pergunta se ela não tem medo que um deus venha por trás, uma vez que eles estão em toda a parte...

17.11.03

Diálogo a três dimensões

mas conta-me: como é que é a vida aí?
oh...é diferente.
melhor do que cá?
sim e não. enfim, não tem nada a ver. percebes?
mais ou menos...
digamos que estou rodeado pelo irreconhecível. é reconfortante e assustador ao mesmo tempo.
também queria sentir isso de novo...
porque é que não vens ter comigo?
tenho medo de ir embora.
medo? não tens idade para isso!
talvez não...
mas medo de quê?
de voltar um dia e de não me encontrar nos sítios por onde passei.
o que não falta neste mundo são sítios por onde passar. e além do mais, isso que sentes pelos "teus" lugares não é posse nem pertença...
então?
é vício.
estás a dizer que mudar de ares é como mudar de marca de tabaco?
não...isso é o que tu dizes. mas vendo bem, não poderia ter dito melhor.

[SILÊNCIO #1]

não acredito que possa viver melhor longe daqui.
nem eu.
qual é o melhor sítio para viver?
acho que todos. qualquer um. e nenhum.
quando saí daqui pela primeira vez, acreditava que podia viver feliz em todos os lugares do mundo...que podia acordar de manhã em qualquer cama e olhar para o sol de qualquer janela, e ele seria sempre o mesmo...agora que parei de correr, é como se este sol não existisse em mais lado algum.
existe, sim...esse "teu" sol, esses "teus" lugares de eleição, tudo isso existe em todo o lado. o que não existe em mais lado algum és tu.

[SILÊNCIO #2]

tenho que ir, já estou atrasado. então...vai dando notícias...
tu também. adeus.
adeus.
...queres que te guarde um cantinho cá em casa?
não. mas sei que tu queres.

15.11.03

Despiste

Abriste o portão com os olhos fixos no carro estacionado mesmo em frente. estavam à tua espera, impacientes, há pouco mais de cinco minutos...os teus cinco minutos da praxe, os cinco minutos que esquecem onde estão as chaves de casa, que compõem o cabelo frente ao espelho do hall de entrada, que escolhem um casaco quente do bengaleiro e se despedem da casa. entraste no carro, multiplicando-te em cumprimentos pelos três ocupantes...foi então que confirmaste o alerta lançado pouco tempo antes: ele estava de muito mau humor.

Arrancaram todos, rumo ao outro extremo da cidade. pelo caminho, frases soltas abriam brechas na música, melodias fáceis de digerir servidas por uma junk radio qualquer. virada para a tua amiga, com quem partilhavas o banco de trás, matavas o silêncio com pequenas revelações do quotidiano, umas interessantes, outras nem por isso... por vezes olhavas através dela e da janela lateral, onde o olhar perdia-se num qualquer estímulo luminoso. a certa altura, deste conta da rapidez invulgar com que os slides da paisagem deslizavam pelo vidro da janela...quando te voltaste para a frente, ele conduzia o carro em jeito de "abram alas!" pressionando os automóveis da frente...colava-se à traseira a cem à hora, em aceleração constante, ready or not, here i come..."anda lá, sai-me da frente!"...até que a suposta lesma da frente resolvesse passar para a via à direita. mas até a mudar de via o raio da lesma era lenta...daí o slalom entre automóveis e separadores, a escassos centímetros de um filme muito feio. dentro do carro, soaram alguns pedidos vãos de contenção, que não percebeste se tinham sido ouvidos. quando alguém abandona o corpo, abandona também os sentidos...e não tinhas dúvidas de que ele estava fora de si.

nunca foste adepta da condução ofensiva. não padecias da aparente imunidade geral às imagens de viaturas acidentadas e vítimas politraumatizadas. na tua cabeça, fizeste a soma: velocidade mais aguaceiros mais curvas traiçoeiras igual a risco. não sabias se os outros tinham o mesmo resultado em mente...mas o facto é que, quando o velocímetro marcou os cento e quarenta, ninguém abriu mais a boca. nem mesmo tu.

perto do destino, a soma cumpriu-se: numa curva larga e escorregadia, a traseira fugiu ao controlo e o carro fez meio pião na estrada, planando sobre um fino lençol de água. a par do chiar dos pneus, ouviste um "foda-se!" escapar-te da boca...ao contrário do que se esperava, foi o sentido de impotência que impediu o pânico de tomar conta de ti. quando tudo terminou com o carro atravessado na estrada, olhaste para o caminho percorrido: ninguém seguia atrás. desta feita, estiveram a largas centenas de metros de um filme muito feio. atiraste algumas frases sedativas, "já passou" "ninguém se magoou" "encosta à berma e respira fundo"...e o corpo dele assim fez. levou o carro à berma, de forma brusca. num espasmo, saiu do carro e fechou a porta com violência. era um corpo sem domínio a ser repreendido pela consciência.

dentro do carro, um tremor ligeiro acompanhava-te nas tuas interrogações:
porque é que não abriste a boca?
onde estava o "foda-se!" minutos antes, quando ainda era útil?
de que serviu prever sem actuar?
quantos perigos poderiam ser evitados com uma simples palavra?
será o silêncio um assassino oculto?

6.11.03

Os sinestetas



Comecei a ler o Antídoto, de José Luís Peixoto. brevemente, tenciono passar os ouvidos pelo último trabalho dos Moonspell - Antidote, que inspirou o pequeno livro do escritor. procuro a correspondência sinestética entre o poético locus horrendus pintado em 11 quadros pela música e os 11 retratos capturados pela objectiva das palavras.

Este tipo de relação artística recorda-me Kandinsky, que um dia afirmou que a música de Wagner tomava cores, texturas e formas na mente dele...e eram essas formas, texturas e cores que o pintor transpunha para a tela, correspondendo a cada nota um traço, a cada harmonia um arranjo, a cada frase musical uma imagem nítida. este é o exemplo de um sinesteta por excelência.

Todo o ser humano é dotado da capacidade de transformar, dentro de si, a natureza das sensações captadas. é comum apercebermo-nos do arranhar de uma guitarra desafinada. do aroma a whisky novo e do toque aveludado de um cd de morphine a tocar na aparelhagem. do murmúrio apaziguador de uma paisagem verdejante. do vermelho ensanguentado de um grito de pânico. do frio inane de um espaço completamente branco. tudo isto reflecte a intrincada malha cerebral que nos governa: biliões de neurónios estabelecendo entre si uma quantidade astronómica de vias rápidas; sentidos que comunicam com outros sentidos e partilham estímulos do exterior. com tamanho grau de complexidade, não há como escapar: somos criaturas de metáforas e sinestesias.

No entanto, são poucos aqueles a quem um som preciso sugere uma cor específica, como o roxo carregado de um P, ou o azul desmaiado de um L. contam-se pelos dedos os que escutam um violino tocando uma melodia aguda e desconcertante e vizualizam um copo de cristal estilhaçado, como se este ali estivesse à sua frente. a este punhado de abençoados, a realidade oferece-lhes mais do que retalhos soltos:

oferece também uma linha com que cosê-los.

1.11.03

Rash verbal: um problema de saúde pública

Perguntas sem resposta sobre o abuso da palavra:

que fazer dos momentos em que apetece calar a pessoa que está ao nosso lado?

onde pára o respeito pelo silêncio cúmplice?

como lidar com a urticária crescente provocada pelo contacto directo com a verborreia?

porque é que não somos dotados de um órgão sensorial para o enfado alheio?

até quando viveremos vulneráveis às dejecções verbais de outros, sem vacina nem cura à vista?

a quem cabe o papel de previnir o fenómeno: ao ouvinte hipersensível ou ao locutor incontinente?

14.10.03

Folhas caducas

A vantagem de um jantar de curso com uma abstenção recorde de 97% é a possibilidade rara de envolver todos os convivas num fenómeno quase vestigial em noites de sexta-feira: a partilha de ideias.

Assim que o álcool cumpriu a nobre missão de soltar o verbo em cada um de nós (mantendo as restantes faculdades acima do limiar da coerência, contrariamente a um ritual estuporante de fim-de-semana), surgiu a problematização do tempo, dissecado de forma semelhante à dos bitoques - a golpes de faca em serrilha. um método prático e eficaz, embora sem a precisão do bisturi. com a nossa curiosidade científica, vestimos a pele de físicos e cosmologistas esporádicos e tentamos ordenar os factos, colhidos pelo caminho como folhas caídas. a relatividade. a percepção. a dimensão fora do controlo. a idade do universo. o fim do mundo.

A conversa foi empolgada, todos queriam colar a sua folhinha ao catálogo da partilha. contudo, ao percorrer as páginas da colecção final, as folhas eram idênticas entre si. Tinham caído no mesmo outono, dos ramos da árvore caduca que é a ciência.

Começamos a abandonar o estado de graça que acompanhou a revolução científica pós-WWI. surgem as primeiras brechas nos postulados de Einstein - como a suposta constância da velocidade da luz, questionada por João Magueijo. esta será talvez a primeira de várias contestações que agitarão a comunidade científica nas próximas décadas. mas não é preciso ser-se cientista, resolver extensas equações ou manobrar complexos instrumentos de laboratório para saber que a realidade existe para além daquilo que vemos, ouvimos e tocamos. basta determo-nos imóveis no silêncio e presenciar a passagem do tempo. não temos como registá-lo, salvo através da sensação indescritível provocada pela irreversibilidade do momento.

Pensar na realidade em termos de espaço e matéria será, um dia, insuficiente para integrar os factos inexplicáveis que se acumulam de descoberta para descoberta. as folhas cairão a um ritmo superior ao da regeneração, até que a árvore despida inicia a sua travessia pelo inverno da crise de paradigmas. no início da revolução, um novo fôlego trará a criação de um paradigma que abranja os factos outrora excluídos da compreensão. novas folhas, embebidas numa seiva diferente, cobrirão a árvore e trarão a expectativa de elementos da realidade até então ocultos.

Este é o ciclo a que o conhecimento científico está condenado.
A percepção a três dimensões não nos permite mais do que analisar a superfície de um gigantesco relógio inviolável e conjecturar quanto à sua engrenagem. quem sabe se um dia estaremos muito próximos da verdade?
Ninguém.

2.10.03

Click here to resume: sepsia

Pensar nos outros, saborear a paixão por quem existe fora da minha fronteira...
uma vida solitária hão tem horas suficientes para tal.

Pudesse eu encurralar cada instante de ternura entre os dedos e prendê-lo com fita-cola às páginas de um caderno em branco...perder-me numa colecção de retalhos como me perco nos recortes do tempo...

Mas tudo o que me resta é a imprecisão do registo distante e esporádico. e raro. que fazer, então, dos retalhos mais preciosos e indigestos? como dissolvê-los no petróleo que me corre nas veias e fazê-los fluir pela ferida aberta?

Quando algo tornar a doer-me como dantes me doía...tal como nos dias em que o belo se mostra, as pessoas espelham (a) vida no rosto, um gesto teu solta-me o riso e o rubro da noite urbana me desperta...voltarei a imaginar um cosmos invertido, onde os paralelos se encontram e o infinito não é senão o medo do limite desconhecido.

é desta forma que marco o fim do sono R.E.M. no qual mergulhei o sepsia até hoje. um reflexo da minha própria emergência da hibernação estival. agora que o "quotidiano delirante" é inescapável, prossegue assim a irreversível contaminação diária. já a sinto em cada contacto, em cada inspiração, em cada deglutição...forra-me por fora e por dentro, forma um invólucro indissociável. e parte de mim volta a ser o que me envolve.